quarta-feira, 11 de junho de 2014

ENTENDENDO OS SINTOMAS DO LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO




FISIOPATOLOGIA

O LES é uma doença inflamatória autoimune de causa desconhecida, cujo indivíduo passa a responder exageradamente a antígenos próprios que normalmente não desencadeariam nenhuma resposta maléfica. Sua prevalência no mundo é de até 76 casos por 100.000 habitantes, com mortalidade três a cinco vezes maior em relação à população geral, na maioria das vezes devido ao acometimento renal. A incidência no Brasil é de 8,7 casos novos por ano por 100.000 habitantes.

Existem três tipos de anticorpos envolvidos: antinucleares (ANA), contra estruturas citoplasmáticas e contra estruturas de membranas. Existem quatro tipos de anticorpos nucleares: contra DNA, contra histonas, contra proteínas não-histônicas ligadas ao RNA e contra antígenos nucleolares. A presença dos ANAs não serve como diagnóstico de LES, pois eles aparecem em diversas outras patologias auto-imunes, porém, sua ausência vai servir como diagnóstico de afastamento de grande valor. Já os anticorpos contra moléculas de membranas são mais diversos. Eles podem se agregar nos fosfolipídios, na beta-2-glicoproteína I, na proteína S, na proteína C e na cardiolipina, a qual será solta após morte da estrutura que a contém e consequentemente irá positivar o exame VDRL.

A doença se manifesta em qualquer porção do organismo, podendo culminar em febre, eritema, perda de cabelo, artrite, pleurite, pericardite anemia, nefrite, leucopenia, trombocitopenia e doença do sistema nervoso central. Dentre as suspeitas etiológicas estão os fatores genéticos, hormonais, imunológicos e ambientais. Foi observada a presença de genes em comuns nos pacientes envolvidos, e o fato do LES estar mais presente nas mulheres em idade fértil levanta a suspeição do peso hormonal. Distúrbios no metabolismo do estrogênio foram encontrados em homens e mulheres doentes, e a concordância entre gêmeos homozigotos reforça o envolvimento genético.  

O modelo da reação imune pode ser observado na gromerulonefrite proliferativa difusa, evento parecido com a glomerulonefrite pós-estreptococcica, quando antígenos se depositam na membrana dos glomérulos ativando o sistema de complemento e fatores quimiotáticos para leucócitos que destroem locais onde os antígenos se depositaram. Enquanto o glomérulo é lesionado, as células de defesa liberam outros agentes quimiotáticos e com isso a inflamação continua a causar lesão até a completa perda da função dos rins. Existe também a gromerulonefrite lúpica, que possui mecanismo semelhante, mas as manifestações são mais brandas. Isso ocorre porque a reação depende do anticorpo envolvido – IgG nesse caso – e sua menor disponibilidade de sítios ligantes.

Como os anticorpos terão afinidade por superfícies celulares em geral, hemácias, leucócitos e as plaquetas poderão estar sendo destruídas pelo sistema de complemento e com isso o paciente acaba cursando com anemia hemolítica, leucopenia e trombocitopenia. Anticorpos contra o complexo fosfolipídeos-beta-2-glicoproteína I presente nos vasos, interfere na ação anticoagulante da beta-2-glicoproteína I causando tromboses arteriais e venosas, inclusive no cérebro e nas placentas, induzindo ao abortamento.

Como estamos falando de anticorpos soltos na corrente sanguínea, as manifestações podem ocorrer em qualquer local. Nas manifestações cutâneas um dos desencadeadores é a exposição ao sol, quando os raios ultravioleta (UV) promovem lesão de DNA e por conseguinte o organismo produz anticorpos anti-DNA. Os raios-ultravioleta também induzem a liberação de interleucina 1 pelos ceratinócitos, induzindo inflamação em locais próximos a eles. As agressões causadas pelos raios UV culminam em manifestações eritematosas, sendo a mais comum as lesões em asa de borboleta, um eritema único espalhado na altura dos zigomáticos e nariz. A fotossensibilidade, assim como o sinal em asa de borboleta ocorre em 50% dos pacientes.



As lesões vasculares causam obliteração da luz dos vasos, aumento das células endoteliais e trombos, mas normalmente não há necrose. No pulmão a atividade imune lesa a parede alveolar causando hemorragia e edema. É a pneumonia lúpica. No coração trombos de fibrina e plaquetas secundários ao acúmulo de imunocomplexos causa a endocardite de Libman-Sacks, quando esses trombos formam vegetações e se configuram na manifestação cardíaca mais característica do LES.




QUADRO CLÍNICO






Queixas articulares se apresentam em 95% dos pacientes sendo assimétricas e migratórias, desaparecendo de um a três dias. Os locais mais frequentes são dedos, mãos, punhos e joelhos, mas podendo surgir também em outros locais inclusive em quadris. Aqui também há rigidez matinal, mas se limita a minutos. Outra manifestação que também ocorre na artrite reumatoide, porém mais branda, é a deformação em pescoço de cisne nos doentes de longa data. Necrose pode ocorrer na cabeça do fêmur e do úmero. A osteoporose costuma ocorrer, sendo agravada quando o paciente faz uso de corticoides.

Cabelo lúpico





Outra manifestação cutânea importante é o eritema discoide, ocorrendo em 25% dos pacientes após a estimulação dos queratinócitos. São placas redondas, de bordas definidas, cobertas por uma escama aderente que se estende para os folículos pilosos. Nas bordas é apresentada uma lesão inflamatória em expansão que vai cicatrizando e deixando para trás uma cicatriz atrófica e despigmentada, semelhante à lesão da psoríase. Os locais mais comuns são o couro cabeludo, pescoço, ombros, face e orelhas. Quando a doença se manifesta apenas como discoide o quadro é denominado de lúpus discoide, e nos pacientes que apresentam lesão única, as chances de evoluir para LES é de 10%. Nas lesões discoides a perda de cabelo consequente é permanente, mas a perda de cabelo não-discoide que ocorre em 71% dos pacientes geralmente retorna com o chamado cabelo lúpido, diferente do cabelo natural. É secundário a um período de estresse, gravidez, recrudescência do LES e uso de esteroides.



Lesão discóide.



Lesões cutâneas também podem ocorrer difusamente sobre a pele, manifestadas como pápulas pequenas, eritematosas e discretamente descamativas, ocorridas geralmente em antebraço e parte superior do dorso. Os pacientes que apresentam esse tipo de lesão estão relacionados com anticorpos anti-Ro e HLA-DR3.

Manifestações vasculares são comuns, como o fenômeno de Raynaud, que é benigno, mas também pode causar ulcerações quando ocorre um vasoespasmo que oclui a luz dos vasos. As telangiectasias podem ocorrer quando o paciente está sob a influência de um vasodilatador, como temperaturas elevadas e etilismo. Quando as manifestações são de vasoespasmo o gatilho pode ser o frio, a cafeína, tabagismo, descongestionante e estresse.

A pleurite ocorre em 50% dos pacientes, podendo estar acompanhada de tosse e dispneia. A ausculta vai identificar atrito pleural e o raio-x mostrará derrame pleural. Esses sintomas também se constituem em pneumonite lúpica, ocorrida em até 12% dos pacientes, nos quais ocorrerá fibrose de estruturas pulmonares e por isso o prognósticos desses casos é ruim.

As manifestações cardíacas são ricas. Haverá ataque inflamatório do tecido cardíaco e com isso é observado dor retroesternal, derrame e atrito pericárdico. As valvas, assim como as coronárias, também podem ser atingidas produzindo alterações auscultatórias.

Por conta da agregação dos antígenos IgM às membranas das células sanguíneas, o indivíduo com LES vai cursar com anemia, geralmente normocítica e normocrômica, manutenção dos níveis de ferro e contagem de reticulócitos baixa. Leucopenia é muito comum, mas a contagem não é muito baixa. 50% dos pacientes se encontram abaixo de 4.500 e 17% se encontram abaixo de 4.000. De maneira semelhante a trombocitopenia abaixo de 150.000 por milímetro cúbico é encontrada em de 50% dos paciente e abaixo de 50.000 é encontrada em  10%. Isso é tão prevalente que a púrpura trombocitopenica é muitas vezes o primeiro sinal do LES e quando integra o quadro de pacientes com anemia hemolítica constitui-se um quadro muito sugestivo de lúpus.

Na púrpura trombocitopenica, as moléculas IgG se ligam à superfície das plaquetas, o que acaba induzindo ao ataque por macrófagos e queda das plaquetas numa velocidade a qual o corpo não consegue compensar. Daí instala-se a trombocitopenia, ocorrendo sangramentos espontâneos quando as plaquetas ficam abaixo de 20.000.

Mesmo sendo uma doença inflamatória os linfonodos e o baço apresentarão poucas mudanças. Alguns linfonodos poderão estar levemente aumentados, não são dolorosos à palpação, são amolecidos e geralmente identificáveis no pescoço. Já o baço estará aumentado em apenas 10 a 20% dos pacientes, geralmente na doença ativa. Hepatomegalia também pode ocorrer. A anemia pode ocorrer ainda por via intestinal. Acometimento do trato gastrointestinal pode chegar a 40% dos pacientes, os quais geralmente referem dor e dificuldade de engolir. Na presença de dor a vasculite sempre deve ser lembrada devido às chances do ataque inflamatório a vasos sanguíneos. Se a dor for no hepigastro, cursando com náuseas e vômitos, pode-se estar diante de pancreatite, que tem a vasculite como fator desencadeante.

Pacientes com LES quase que invariavelmente irão cursar com algum nível de ansiedade e/ou depressão, estando ai envolvido o peso patológico da doença e o medo do paciente em perder suas capacidades funcionais. Outros sintomas neurológicos incluem insônia, anorexia, mialgia, artralgia, palpitação, perda de memória e labilidade emocional. Outros sintomas mais preocupantes envolvem a psicose, com incidência em 24% dos pacientes. Esse sintoma infelizmente também pode ser causado pelos esteroides utilizados na terapêutica do LES, além de outros medicamentos comuns que precipitam problemas inusitados, como a meningite asséptica causada pelo ibuprofeno. Como se fala de ataque inflamatório a vasos sanguíneos quando os problemas envolvem a vasculite, pode-se imaginar o peso desse evento no tecido cerebral e assim entender porque até 15% dos pacientes cursam com acidente vascular cerebral.

Outros eventos relacionados são os abortos presentes em até 30% das mulheres com LES, e a origem ou exacerbação da doença devido ao uso de alguns medicamentos, tais como a hidralazina ou a procainamida. Trata-se de uma forma branda e reversível do LES, mas há estudos que demonstram que até 100% dos pacientes que previamente possuem os antígenos anti-nucleares evoluem para lúpus ao uso da procainamida.

Resumindo, o LES se inicia de maneira inespecífica, geralmente com fadiga, febre, perda de peso e mialgia e/ou artralgica. O indivíduo não se preocupa como deveria e na ausência de tratamento segue as manifestações específicas, tais como a artrlagia, as manifestações cutâneas (com destaque para o eritema em asa de borboleta e lesão discoide), úlceras nas mucosas em geral, lesões renais, pleurite, derrame pleural e pneumonia lúpica, atrito pericárdico, esplenomegalia, hepatomegalia e sintomas neurológicos, como a psicose. Presença de anemia, azotemia, trombocitopenia, leucopenia, hematúria, piúria em algum nível de associação levanta a suspeita de LES. Crianças tendem a apresentar mais o comprometimento renal, idosos tem sintomas mais brandos, mas apresentam maior ceraconjuntivite seca.

Como os sintomas iniciais são inespecíficos a doença se confunde com outras e por isso pode ser realizada a pesquisa de anticorpos anti-nucleares (ANA), mas apenas o resultado negativo tem um valor preditivo satisfatório, ou seja, de realmente ser negativo. Caso venha ser positivo deve-se solicitar as proteínas nucleares Sm, anti-Ro/SSA e anti-La/SSB, e RNP. Outro exame complementar é a determinação do nível das proteínas do complemento, que raramente estão deprimidos em outras doenças reumáticas, mas assim estão na LES quando se trata de C3, C4 e CH50 (complexo hemolítico total), principalmente quando o rim é atingido.


LISTA DE EXAMES DIAGNÓSTICOS E COMPLEMENTARES:

- hemograma completo;
- contagem de reticulócitos;
- teste de Coombs direto;
- velocidade de hemossedimentação (VHS);
- proteína C reativa;
- eletroforese de proteínas;
- aspartato-aminotransferase (AST/TGO);
- alanina-aminotransferase (ALT/TGP);
- fosfatase alcalina;
- bilirrubinas total e frações;
- desidrogenase láctica (LDH);
- ureia e creatinina;
- eletrólitos (cálcio, fósforo, sódio, potássio e cloro);
- exame qualitativo de urina (EQU);
- complementos (CH50, C3 e C4);
- albumina sérica;
- proteinúria de 24 horas;
 - VDRL;
- avaliação de autoanticorpos (FAN, anti-DNA nativo, anti- Sm, anticardiolipina IgG e IgM, anticoagulante lúpico, anti-La/SSB, anti-Ro/SSA e anti-RNP).


TRATAMENTO

1.                  Exercício físico;

2.                  Prednisona 0,5 a 2 mg/Kg/dia.

Comprometimento hematológico: prednisona em dose alta ou muito alta por quatro a seis semanas e a partir daí faz-se a redução gradual seguindo a resposta do paciente. A prednisolona é utilizada nos casos graves independente do órgão atingido. 25% dos pacientes não aceitam bem a corticoidoterapia. Nesses casos pode ser utilizada a azatioprina na dose de 1 a 3 mg/Kg/dia ou danazol associados a prednisona em baixas doses. A dose de manutenção do danazol é de 200 a 400 mg/Kg/dia, sendo que a dose inicial pode ser mais alta a critério do médico.

Nas anemias hemolíticas ou nas plaquetopenias graves que não respondem bem ao corticoide pode ser prescrita a imunoglobulina intravenosa na dose de 400 mg/Kg/dia. O problema dessa terapêutica é seu custo extremamente elevado.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Portaria Nº 100: Aprovação do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Lúpus Eritematoso Sistêmico. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Brasília, 2013. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2013/prt0100_07_02_2013.html

LOPES, Antônio Carlos. Tratado de Clínica Médica. 2. ed. São Paulo: Rocca, 2009.

COTRAN, R.S; Kumar V; COLLINS, T. Robbins. Bases Patológicas das Doenças: Patologia. ed. 7. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.


Goldman L,  Ausiello D. Cecil: Tratado de Medicina Interna. 22ªEdição. Rio de Janeiro: elsevier, 2005. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

FACILITANDO A TUBERCULOSE PULMONAR

Cultura de Mycobacterium tuberculosis.


A tuberculose é uma patologia causada pelo Mycobacterium tuberculosis, tendo uma preferência pelo acometimento pulmonar, apesar de haver possibilidade de infecção de qualquer porção do organismo. Outros espécimes de Mycobacterium, a exemplo do bovis e africanum podem causar infecções, mas o termo tuberculose é exclusivamente relacionado ao tuberculosis. No Brasil o Ministério da Saúde registrou 71.123 novos casos de tuberculose em 2013, mas apesar desse número, os índices indicam uma queda de 20,3% na incidência da doença no país. A taxa de incidência ficou então em 34,5 para cada 100.000 habitantes, em contraste com 2002, quando era de 48/100.000 habitantes.

O Mycobacterium tuberculosis possui crescimento lento, havendo duplicação apenas em 18 a 24 horas, justificando o período prolongado do início dos sintomas. Apesar dessa lentidão, essa bactéria possui grande capacidade de adaptação ao organismo por ser parasita intracelular facultativo aeróbico e de sobreviver à endocitose por fagócitos, umas das vias pela qual consegue se espalhar pelas diversas regiões do organismo humano.

Em quase todos os casos a infecção se faz por via aérea através de gotículas contaminadas lançadas ao ar. Quando o paciente cursa com cavitações a carga bacteriana expelida é bem maior (1 a 100 milhões/ml), mas ao contrário do que se pode pensar, as gotículas expelidas por essas pessoas são de maior tamanho e mais sujeitas a serem varridas pelo sistema mucociliar do indivíduo sadio. Isso ocorre porque a infecção é dependente da suspensão de gotículas de tamanho menor (aerossóis), capazes de alcançar as vias mais baixas do sistema respiratório.

Quando o bacilo atinge as vias aéreas mais baixas, dois fatores vão trabalhar para favorecer o crescimento bacteriano: 1- a afinidade baixa das células fagocitárias irá permitir um crescimento inicial maior; 2- as células de defesa muitas vezes fagocitam, mas não destroem o bacilo, fornecendo, ao invés disso, um ambiente ideal para seu crescimento. Isso ocorre devido a um bloqueio da fusão do fagossomo contendo a bactéria com o lisossomo, impedindo assim sua destruição. Um dos mecanismos que possibilita essa proteção é a inibição de sinais de cálcio que comandariam a reunião de proteínas necessárias para a fusão. Essa anergia do organismo felizmente é parcial e dura no máximo 3 semanas para aqueles que nunca tiveram contato com o bacilo, e a partir de então a reação imunológica torna-se gradativamente mais eficaz e acaba determinando além da morte dos invasores, a destruição de células infectadas do parênquima e assim as referidas cavitações.

Imagem de uma cavitação à radiografia


Com o avançar da infecção, mais linfócitos liberam citocinas e células dentrídicas apresentam antígenos a outros macrófagos aumentando a resposta imune gradativamente para no fim reduzir a bacilemia. No entanto, o corpo costuma sair vencendo em 95% dos casos e no restante há disseminação principalmente nos ápices dos pulmões, onde há maior aeração e facilitação do crescimento do Mycibacterium. O ápice dos pulmões é também o local onde costuma ocorrer a reativação dos focos do bacilo.

Durante semanas a messes a bacilemia aumenta maciçamente em focos granulomatosos disseminados pelo parênquima pulmonar, mas com o tempo a imunidade regride esses focos, por vezes restando apenas um ponto residual, e por vezes também sendo acompanhado de calcificações hilares ipsilaterais. Esses granulomas são áreas de atividade imunológicas, são inicialmente bem pequenos e coalescem com o transcorrer da patologia, cercados por uma cápsula fibroelástica, possibilitando uma imagem macroscópica chamada de consolidação. Essa imagem quando alcança o tamanho de 1 a 1,5 cm e possui um centro branco-acinzentado e necrose periférica passa a ser chamado de foco de Gohn, possuindo uma necrose caseosa no centro. O produto caseoso é drenado para os linfonodos e aqueles atingidos também passam pelo mesmo processo.  Quando há o envolvimento concomitante pleural e linfonodal tem-se o chamado complexo de Gohn.

Após as três semanas de infecção o organismo ativa uma resposta mediada por TH1 liberadoras de interferon-gama, este tornando linfócitos competentes em reduzir a bacilemia justamente por quebrar a inibição da fusão do lisossomo com o fagossomo que até aí ficava servindo de local de crescimento bacteriano. O interferon-gama também induz a liberação de óxido nítrico que produzem radicais livres agressores da parede celular e todos os demais componentes dos bacilos, inclusive o DNA.

A atividade dos linfócitos é agressiva também ao parênquima pulmonar, determinando a formação de um granuloma evoluído para necrose caseosa, que após ter seu conteúdo expelido com a tosse deixa para trás uma cavidade sangrante. O interveron-gama também estimula a ativação de monócitos e esses ativam outros macrófagos para ajudar na resposta imunológica, contudo, ao contrário da atividade linfocitária, a defesa mediada pelos macrófagos não destroem o parênquima. Essas células inflamatórias caem na corrente sanguínea e se constituem em duas explicações: é a resposta para a reação inflamatória no PPD diagnostico; é a resposta para a tuberculose extrapulmonar, pois os macrófagos infectados pelo Mycobacterium podem liberar os parasitas em qualquer parte do organismo.

De qualquer forma, se há cavitação ou consolidação a cápsula fibrosa que se forma ganha uma consistência endurecida pela fibrose e pela sua afinidade ao cálcio, sendo referidas nos exames de imagens como cicatriz. Na tuberculose pulmonar progressiva essa cápsula se constrói de maneira mais irregular e há também maior erosão de vasos sanguíneos, agravando a hemoptise. Outra condição perigosa é a tuberculose miliar, que ocorre quando nas cavitações abrigadoras de bacilos são drenadas por via linfática, levando o bacilo para o lado direito do coração e daí outra vez para a artéria pulmonar e de volta para os pulmões, disseminando a infecção em diversos locais de tamanho diminuto e com aspecto amarelado semelhante a sementes de milho. Cada foco de infecção é também um foco em crescimento e por isso eles podem se unir e por fim consolidar grandes áreas e até mesmo todo o lobo. O sangue que retorna ao coração continuará a conter os bacilos e desse órgão a circulação promove a infestação de qualquer outro órgão como o fígado, o baço, as meninges, as tubas uterinas, medula óssea, adrenais ou rins.


Os diversos focos na tuberculose miliar.


QUADRO CLÍNICO

Uma expressão que se deve compreender é a tuberculose primária, ocorrida quando a fonte da doença é externa ao corpo. As formas secundárias são aquelas disseminadas a partir de um foco pulmonar para outras partes do corpo, e a reativação de focos aparentemente controlados. É certo que num indivíduo nunca antes contraído a tuberculose – e por isso não sensibilizado – produza sintomas gradativos de semelhança forte com uma gripe comum, mas 5% desses indivíduos já reproduzem sintomas significativos. A forma mais lenta é a tuberculose primária gradativa, e por ser relativamente indefinida seu diagnóstico muitas vezes é difícil, podendo ser confundida também com pneumonia bacteriana, adenopatia hilar e derrame pleural. Caso o paciente tenha imunossupressão a infecção vai ser facilitada e o diagnóstico decididamente mascarado, com cavitações se constituindo uma raridade.

80% dos adultos apresentam a forma pulmonar da tuberculose. 15% apresentam a forma extra-pulnonar e 5% apresentam as duas formas. Os sintomas mais característicos são tosse, febre e sudorese – por vezes diaforese. Pode ocorrer também perda de peso, fadiga, mal estar, dor torácica e dispneia, mas a tosse é decididamente o sintoma mais presente. Ela se inicia seca e na medida em que a parênquima é destruído vai se transformando em produtiva, com presença de pus, raias de sangue e até hemoptise macroscópica. A febre costuma ser vespertina e de 40 a 41°C, e a ausculta pulmonar vai ficando mais rica na medida em que mais secreções vão sendo produzidas, incluindo aí sibilos, roncos e murmúrio vesicular diminuídos.

As formas secundárias ocorrem num indivíduo que foi previamente infectado, podendo ocorrer a partir de reativação dos focos anos e até décadas após o primeiro evento, quando por algum motivo a imunidade do indivíduo enfraqueça. Essa forma envolve menos linfonodos, mas as cavitações são precoces e mais secretivas, e os sintomas gerais são insidiosos, aí incluídos a indisposição, anorexia, perda de peso e febre de baixo grau e com transpiração noturna. Com o espalhar das cavitações e da infecção, o paciente apresenta a dor pleurítica. Os focos de Gohn da tuberculose secundária possuem as mesmas características, com exceção da necrose periférica. Como a primária ela se concentra inicialmente no lobo apical por conta da maior aeração, mas posteriormente a doença se dissemina para diversas vias.


MEDIDAS DIAGNÓSTICAS

 Caso o paciente se apresente com queixa de tosse persistente ou um dos sintomas abordados acima deve ser solicitado rapidamente um raio-x de tórax na busca das consolidações – que são os locais de destruição celular sem terem sido expelidos pela tosse – ou cavitações. Também deve ser solicitados a pesquisa BAAR (pesquisa por bacilos álcool-ácido-resistentes) e cultura de escarro. Apesar de não ser muito realizada na prática, a reação de cadeia de polimerase para Mycobacterium tuberculosis é o exame provedor de diagnósticos mais rápidos e fiéis, podendo ser positivo com menos de 10 organismos no meio coletado, ao invés dos 10 a 100 bacilos/ml da cultura de escarro e dos 4.000 a 5.000 bacilos/ml da baciloscopia. Contudo, a cultura promove uma informação valiosa: a sensibilidade aos antibióticos, identificando também os casos de multirreristência.

O teste tuberculínico é um exame auxiliar para definir contato prévio com o Mycobactérium tuberculosis, sem definir indivíduos doentes daqueles apenas infectados. No Brasil é utilizado o produto PPD RT23 introduzida por via intradérmica na face anterior do antebraço na dose de 0,1 ml com leitura após 48 a 72 horas, ocorrendo endurecimento palpável com três possibilidades conclusivas; 1- endurecimento com tamanho de 0 a 4mm o paciente é definido como não infectado ou não sensível; 2- 5 a 9mm é definido como um reator fraco e infecção precedente; 3- 10 mm ou maior é o reator forte, que significa uma infecção presente por Mycobacterium tuberculosis – doente ou não – ou vacinação por BCG há menos de dois anos

Os casos de bacilos multirresistentes se constituem em mau prognóstico, assim como os casos de HIV a depender do nível de imunossupressão. Caso o paciente HIV positivo tenha contagem de linfócitos T CD4+ acima de 300 células/ml as manifestações se assemelharão a tuberculose secundária comum. Contagem abaixo de 200 células/ml a doença será como a primária progressiva, ou seja, consolidações em lobos médio e inferior, linfadenopatia hilar e ausência de cavitações. Outra diferença é que na imunodeficiência moderada a taxa de pacientes com tuberculose extrapulmonar é de 15%, contra os 50% dos pacientes com imunodeficiência grave.


TRATAMENTO

·         Isoniazida: contém o ácido nicotínico, um inibidor do ácido micólico, que é um componente da parede celular das micobactérias. Parede celular mal formada diminui a resistência às forças osmóticas do meio e como consequência a bactéria é lisadas até mesmo por entrada excessiva de água;
·         O mecanismo do etembutol é similar, porém admite-se que seu mecanismo ainda não é completamente compreendido. Sua função é predominantemente micobacteriostático, agindo preferencialmente após 24 horas do primeiro uso.
·         A rifampicina possui ação antibactericida por atuar na sua RNA polimerase ao se ligar à subunidade beta, inibindo sua ação de transporte da informação contida no DNA. A ação bactericida vale tanto para as bactérias intra como extracelulares.
·         A pirazinamida é um bactericida fraco, mas no caso do Micobacterium tuberculosis possui ótima ação. Seu mecanismo se concentra em reduzir o PH intracelular dos lisossomos e com isso cria um ambiente hostil para a proliferação do bacilo. Ele é convertido em ácido pirazinoico e no momento em que adentra no lisossomo rebaixa o PH para menos de 5,5.

ESQUEMA BÁSICO

De acordo com o II Inquérito Nacional de resistência aos fármacos anti-TB conduzido em 2007-2008, que revelou aumento da resistência à isoniazida de 4,4% para 6,0%, e da rifanpicina de 1,1 para 1,4%,o esquema de tratamento para tuberculose foi modificado, ficando como a seguir:


Dois meses
Rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol (150/75/400/275mg) (associados em único comprimido)
De 20 a 35 Kg- 2 comprimidos ao dia;
De 36 a 50 Kg- 3 comprimidos ao dia;
Acima de 50 Kg – 4 comprimidos ao dia
Seguimento de quatro meses
Rifampicina e isoniazida (300/200mg)
De 25 a 35 Kg-1 comprimido (300/200);
De 36 a 50 Kg- 1 comprimido 300/200 + 1 comprimido 150/100);
Acima de 50 Kg- dois comprimidos de 300/200
OBS; nos casos de monoresistência a isoniazida ou à ripampicina, deve-se substituir o medicamento envolvido por estreptomicina. Se essa resistência ocorrer na fase de seguimento deve-se continuar, aumentando-a para sete meses ao invés de quatro.
OBS: pacientes com HIV associado em uso de antirretroviral não devem fazer uso de rifampicina. Nesse caso tal medicamento deve ser substituído por rifabutina.
OBS: nos casos de interrupção por falta de adesão adequada ao tratamento o esquema deve ser reiniciado.

REFERÊNCIAS

LOPES, Antônio Carlos. Tratado de Clínica Médica. 2. ed. São Paulo: Rocca, 2009.

COTRAN, R.S; Kumar V; COLLINS, T. Robbins. Bases Patológicas das Doenças: Patologia. ed. 7. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

Goldman L,  Ausiello D. Cecil: Tratado de Medicina Interna. 22ªEdição. Rio de Janeiro: elsevier, 2005.