quarta-feira, 8 de maio de 2013

OSTEOPOROSE

CONSIDERAÇÕES SOBRE TECIDO ÓSSEO


Duas organizações teciduais são encontradas nos ossos: uma porção compacta também denominada de osso lamelar ou cortical, e uma porção trabecular ou esponjosa organizada em finas camadas, possuindo poros entre si e grande quantidade de células, ao contrário do osso cortical. O osso cortical é predominante nos ossos longos e, apesar das poucas células, está em constante remodelação. O esponjoso é predominante no interior de ossos chatos, como os corpos vertebrais.


O osteoblasto é uma célula advinda do estroma ósseo com uma forma específica da fosfatase alcalina em sua membrana plasmática. Essa enzima tem função de mineralização óssea através da cristalização do fosfato de cálcio na matriz extracelular. O osteócito é uma célula estável no osso maduro com função de prover o fluxo de minerais. São osteoblastos que não fazem mais a função de mineralização óssea, passando então a trabalhar na manutenção do osso ao irradiarem canalículos entre si, as junções comunicantes, com objetivos de compartilhar íons. O condrócito é a célula sucessora do condroblasto, predominante nas cartilagens e por isso predomina também nas placas de crescimento, aí exercendo a função de liberação de colágeno tipo 2 para a matriz extracelular e vesículas de fosfatase alcalina, com provável papel na construção da forma óssea.




O osteoclasto é a célula responsável pela absorção óssea, ou seja, a célula que retira cálcio dos ossos e os joga na corrente sanguínea. Ela é gigante, multinucleada, possui organelas com função de fixação desta célula ao osso, as podossomas, além de diversas enzimas que agem na retirada do cálcio.

PODOSSOMA NA BASE DO OSTEOCLASTO EM CONTATO COM  O OSSO.


A remodelação óssea é o contrabalanço entre a formação e a reabsorção óssea. Essas duas atividades são controladas pelo paratormônio (PTH), a calcitonina e o calcitriol, que agem através dos fatores de estimulação para os osteoclastos ou osteoblastos. A interleucina (IL)-1, IL-6 e fator de necrose tumoral (TNF)-b, são estimuladores da atividade de osteoclastos. As moléculas RANK (ativador do receptor de fator Kappa B nuclear) e seu ligante na superfície do osteoclasto, o RANK-L, quando unidos induzem a maturação e ativação do osteoclasto. Pelo contrário, a osteoprotegerina inibe essa ligação e por isso inibe a reabsorção óssea. Existe também o ligante RANK-L na superfície do osteoblasto, que da mesma forma irá ativar processos, só que de formação óssea, mas é preciso citar a atual não compreensão desse evento. 

A remodelação sempre começa pela ação dos osteoclastos, que vão escavando o osso e formando túneis. Logo depois segue a deposição de osteoblastos, os quais promovem a formação óssea onde o cálcio foi retirado. A formação e a reabsorção estão ligados de tal maneira, que se algum evento incutir perturbação em um dos dois o outro também responde. A absorção de cálcio é um exemplo de fator de modificação, pois é necessário que esteja bem disponível no sangue para que o osso seja reconstruído. Isso ocorre a nível de intestino delgado, onde 10% de todo cálcio é absorvido espontaneamente e o restante através de metabólitos ativos de vitamina D. Geralmente a fração de cálcio absorvido na dieta normal é de 30%, mas nas privações alimentares de cálcio essa absorção chega até 90% para que a atividade dos osteocalstos não seja estimulada para assim manter os níveis séricos do mineral em homeostase.

A síntese de vitamina D ocorre na pele através da exposição solar, ou pode ser ingerida na forma vegetal (ergocalciferol ou D2) ou animal (colecalciferol ou D3) e é importante para manter os níveis séricos em 10 ng/ml. É considerado um hormônio, mas a denominação “vitamina” manteve-se por conta da sua maior fonte ser de origem externa ao corpo. No idoso esse nível está baixo com frequência não só pela diminuição da síntese, mas também pela redução da capacidade de absorção intestinal. No Brasil estima-se que 30% dos idosos sofrem com deficiência dessa “vitamina” e por isso é recomendado que todos os idosos acima de 70 anos recebam suplementação. Fato que comprova isso foi pesquisa realizada na França, que definiu uma queda de 43% das fraturas de colo de fêmur e 32% de outras fraturas com a simples suplementação diária com 1.200 mg de cálcio e 800 Ui de vitamina D.


OSTEOPOROSE

Osteoporose se define como uma perda de massa óssea, se manifestando como aumento de poros no tecido ósseo e seu consequente enfraquecimento. Ela pode ocorrer porque o indivíduo não movimenta determinado membro, ocasionando a osteoporose por desuso, ou pode se desenvolver em todo o esqueleto, caracterizando uma doença metabólica.

40% das mulheres brancas americanas e 13% dos homens brancos americanos acima de 50 anos irão sofrer de fratura por fragilidade óssea ao menos uma vez na vida. Quando abordado todos os demais problemas envolvendo a osteoporose, define-se que o gasto com a patologia nos E.U.A. são de 17,9 bilhões.

Os fatores de risco são importantes, mas não são específicos o bastante, nem enriquecedores o suficiente para diagnosticar clinicamente a osteoporose. Esses fatores podem ser maiores: história pessoal de fratura na idade adulta, história de fratura em parente de primeiro grau, tabagismo, baixo peso, uso de glicocorticoides, ser asiático, menopausa precoce não tratada e idade avançada; os fatores menores são: deficiência fisiológica de estrógeno, baixa ingestão de cálcio, quedas recentes, hipogonadismo primário ou secundário em homens, uso de heparina, uso de varfarina e metotrexate, imobilização prolongada, déficit de visão e doenças crônicas associadas. Existe também uma gama de causas secundárias tais como, hipercortisolismo natural ou exógeno, hipertireoidismo, neoplasias do sistema hematopoiético, cirrose biliar primária, hemocromatose e doenças reumáticas inflamatórias.

O desenvolvimento do osso chega ao clímax por volta dos 20 a 39 anos, quando ocorre o pico de ação do fator de crescimento tipo-insulina 1 e seu receptor, receptores de estrogênio e de vitamina D, além da expressão dos genes fabricadores de colágeno. Após esse período da vida o homem perde em média 0,7% de massa óssea por ano. É um fenômeno fisiológico, apesar de pessoas da raça negra possuírem uma perda mais discreta, mesmo tendo uma menor síntese de vitamina D na pele por conta da maior pigmentação. Um dos motivos para esse decréscimo seguir o avanço da idade é que com o tempo proteínas imersas no espaço extracelular com função de estimulação dos osteoblastos diminuem sua atividade gradualmente, a despeito da atividade dos osteoclastos continuar no mesmo ritmo. Com isso a função dos osteoblastos não acompanha a função dos osteoclastos e assim se faz a osteoporose senil.
A osteoporose por desuso é comprovada pela perda de massa óssea em membros imobilizados de pacientes vítimas de fraturas. Outra comprovação é a perda óssea em astronautas, ambos os fatos servindo de base para definir a resistência a pesos como um grande fator na manutenção da densidade óssea.

De volta ao receptor da vitamina D, é sabido que seu polimorfismo determina uma maior ou menor densidade óssea. Como é responsável por 75% da massa óssea, seu estado vai ser o melhor representante do peso genético na osteoporose. Outra causa importante na gênese dessa patologia é a ingesta de cálcio, que é menor em adolescentes meninas em relação aos meninos. Como a deficiência ocorre no período de crescimento rápido, as meninas serão predispostas, contribuindo com a proporção de mulheres que sofrem fraturas por conta da osteoporose em relação àquelas por outras causas seja de 1:2, enquanto que essa relação nos homens seja de 1:40.  É esperado também que as mulheres percam 35% do osso esponjoso e 50% do trabecular 30 a 40 anos após a menopausa. Essa é a perda óssea hormônio-dependente. A explicação para isso é que após a menopausa ocorre uma queda dos níveis de estrogênio determinando a liberação de IL-1, IL-6 e TNF por monócitos, que por sua vez funcionam como um gatilho para o recrutamento e proliferação de osteoclastos. Os osteoblastos também se proliferam, mas como seu aumento é aquém do primeiro evento, o osso vai gradativamente perdendo densidade. Outro motivo para o surgimento da osteoporose é o uso crônico de corticoides, quando da mesma forma ocorre uma maior reabsorção óssea em relação à sua formação.

Assim, não importando a origem da patologia, senil ou hormonal, alguns locais do esqueleto cursam com maior reabsorção óssea do que outros. No período pós-menopausal os corpos esponjosos das vértebras sofrem grande perda de massa óssea. As trabéculas perdem muitas das comunicações entre si, o que leva à fragilidade, microfraturas e o que Robins cita como colapso vertebral. Esses tipos de acometimentos, se ocorridos nas regiões lombares e torácicas, levam a quadro de dores importantes. Fraturas em diversos níveis causam diminuição da altura, além de distúrbios posturais como lordose e cifoescoliose. Infelizmente a osteoporose permanece assintomática até que alcance quadros avançados, possibilitando que eventos dessa magnitude ocorram.

As manifestações costumam ocorrer apenas quando o quadro já avançou. As fraturas de vértebras se manifestam geralmente com dor após um movimento corporal rápido, ou mesmo após tossir ou espirrar. A dor aguda geralmente desaparece após quatro semanas, sendo esse um dado importante, pois na ocorrência de período maior deve-se considerar a existência de neoplasias. Essas fraturas também com frequência são indolores e por isso apenas 30% dos pacientes procuram o médico antes do quadro se agravar, nesse caso por conta de dores secundárias a contração ativa prolongada e encurtamento da musculatura paravertebral, determinando a fadiga da mesma. É importante, então, a atenção à perda de altura do paciente, que pode ocorrer antes do agravamento de quadros dolorosos e ser tão importante a ponto de diminuir a cavidade abdominal causando obstipação intestinal crônica.

Fraturas de quadril e antebraço distal são as mais comuns e geralmente ocorrem após queda e constitui a principal complicação da osteoporose. As de quadril aumentam com a idade e após os 50 anos ocorrem o dobro nas mulheres em relação aos homens. A maioria ocorre por conta de queda de própria altura, principalmente no inverno, pois como a diminuição da exposição solar é menor também a síntese de vitamina D e por isso os ossos se tornam mais frágeis. Um ano após uma fratura de quadril a mortalidade é de 21% em homens e 36% em mulheres. 8% dos homens internados por fraturas de quadril secundárias a osteoporose morrem durante o período hospitalar, enquanto que esse índice para mulheres fica em 3%.

A fratura de antebraço distal ocorre depois de uma queda com o braço estendido, ocorrendo com mais frequência dos 40 aos 65 anos. Apesar de não estar muito ligada a casos de morte, 50% dos pacientes com essa fratura apresentam alguma limitação após um ano e 1% tornam-se dependentes.

90% das fraturas em pacientes com osteoporose são causadas por queda e 50% desses pacientes não conseguirão andar sem ajuda. Dentre as suas causas estão a drop attack, ou ataque de queda, que não é claramente explicada, mas aceita-se a teoria da disfunção transitória da formação reticular que comanda o tônus da musculatura antigravitacional. Pode também estar associada a medicações psicotrópicas, cardiovasculares, corticosteroides e antiinflamatórios não-hormonais.

Os motivos ambientais de queda podem ser riscos ambientais (iluminação inadequada, objetos deixados em passagens, tapetes soltos, piso irregular, degraus e ausência de barras de apoio), nas atividades diárias (transferência de posições), e nos movimentos comuns como o de se virar ou se esticar para os pacientes mais suscetíveis. As atividades diárias estão intimamente ligadas aos riscos ambientais e a maioria das quedas subsequentes ocorrem em eventos simples e geralmente na residência. 65% das mulheres e 44% dos homens caem dentro de casa. 21,4% ocorrem no quarto e 27,4% na cozinha, demonstrando que a mudança de piso liso para emborrachado, ausência de desníveis em geral – degraus e outros – e presença de barras de apoio teriam grande impacto na redução das quedas e traumas subsequentes.


DIAGNÓSTICO

Exemplo de diagnóstico diferencial é com hipertireoidismo, que vai apresentar níveis séricos de cálcio (normal de 8,8 a 11 mg/ml) aumentados, mas com a dosagem do paratormônio essa questão será definida. Dentre os marcadores bioquímicos estão a fosfatase alcalina osseoespecífica (FAL-O) e a osteocalcina (OC), ambos específicos marcadores de formação óssea. Como esses marcadores variam em ritmo circadiano, é plausível que o paciente seja orientado a se informar no laboratório qual hora de realizar a coleta. Deve-se solicitar também hemograma completo, cálcio, fósforo, creatinina plasmática, calciúria de 24 horas e urinálise.

A densitometria é o padrão ouro tanto na detecção, quanto na avaliação de seguimento e resposta terapêutica. Deve ser realizada de preferência um teste confirmatório com a mesma máquina. O diagnóstico é dado pela avaliação da coluna lombar em AP, fêmur proximal, colo femoral ou fêmur total e antebraço, devendo ser repetido num período de 2 a 24 meses. A Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda que esse exame seja realizado em todos os pacientes que sofreram fraturas por choque mínimo, mulheres na peri e pós-menopausa, mulheres com amenorreia superior a um ano, homens com 70 anos ou mais, indivíduos com perda de estatura ou hipercifose torácica e mulheres com IMC menor que 19 Kg/m2. Os resultados são assim interpretados através do T-score: até -1,0 DP (desvio padrão em relação ao pico de massa óssea em adultos jovens) é normal; de -1,1 até -2,5 é osteopenia; abaixo de -2,5 é osteoporose; e abaixo de -2,5 e com presença de fratura é osteoporose estabelecida. Já o Z-escore classifica a osteoporose abaixo de -2,0, mas toma como referência a média de massa óssea para indivíduos da mesma etnia, raça e sexo.

O raio-x, ao contrário, não pode ser utilizado para a detecção da osteoporose, e sim para afastar outras patologias que acometem o osso.


PREVENÇÃO E TRATAMENTO

A prevenção é realizada no cuidado contra quedas, e também precocemente durante a juventude através de exercícios físicos. Ocorre que durante o exercício físico a contração muscular deforma o osso e isso é interpretado pelo organismo como uma atividade de reabsorção óssea, consequentemente induzindo a atividade de formação. No idoso a atividade física também melhora o quadro de osteoporose, mas deve ser realizada com auxílio de profissional habilitado.

O exercício físico também deve ser contínuo, pois e muito mais fácil perder massa óssea do que recuperá-la. Por exemplo: um indivíduo acamado por uma semana perde 1% da massa óssea da coluna, mas precisa de quase um ano de exercícios físicos para recuperar. Os exercícios com tração provém melhor resposta, e assim a caminhada com peso é melhor que a natação e ciclismo.

Quanto ao tratamento medicamentoso, a tibolona é um fármaco utilizado no tratamento da menopausa, inicialmente indicada para a redução dos sintomas do período como os fogachos, sudorese, atrofia de mucosa vaginal e diminuição da libido. Ela não é indicada no tratamento da osteoporose, mas foi identificado seu poder de manter a massa óssea após a menopausa. É extremamente contraindicada em pacientes com hiperplasia ou tumores cervicais, lúpus, cefaleia grave, dentre outras condições. Também deve ser interrompido o tratamento em curso caso surja alguma contraindicação, tais como icterícia ou distúrbios hepáticos. A posologia é 1,25 mg ao dia em dose única. O comprimido é apresentado nessa mesma dose e a caixa pode vir com 24 ou 84 comprimidos.

O raloxifeno é um modulador seletivo dos receptores de estrogênio e exerce os efeitos benéficos do estrogênio sem maiores influências sobre o endométrio e mama. Previne as perdas ósseas em 45 a 55%. Não deve ser utilizado em pacientes com história ou presença de tromboembolia e deve ser parado ao menos 72 horas antes de cirurgias pelo mesmo motivo. A dose é de 60 mg/dia, por via oral.
Os bifosfonatos a exemplo do alendronato e risedronato (aminobifosfonato com função de bifosfonato) diminuem o risco de fraturas em 30 a 50%. O risedronato é especialmente eficaz na doença de Paget, administrado na dose de 30 mg/dia via oral em dose única por dois meses. Caso o tratamento se prolongue a dose deve ser de 5 mg via oral ao dia em dose única. O alendronato costuma ter efeitos adversos gastrointestinais, tais como dispepsia. Para ele existem vários esquemas: 10 mg via oral por dia para o tratamento e 5 mg por dia para a profilaxia da osteoporose. Pode-se ainda utilizar a dose de 70 mg via oral uma vez na semana como via de tratamento e 35 mg como profilaxia. Na doença de Paget a dose é de 40 mg por dia via oral por seis meses.

Por fim a novidade no tratamento da osteoporose é o ibandronato de sódio, também da classe dos bifosfonatos, cujo único comprimido geralmente é vendido por mais de 100 reais. É disposto em comprimido de 150 mg e a posologia é dose única mensal. É especialmente indicada para as mulheres no período pós-menopausa e possui diversas recomendações para seu uso, tais como o repouso de 1 hora após a administração, mas sem deitar, não ingerir líquidos ou qualquer alimentos ou outras medicações nesse intervalo. Não ingerir com água mineral, suco de frutas ou qualquer outra bebida que não água filtrada.

O comprimido deve ser ingerido no mesmo dia de cada mês e o tratamento deve ser contínuo. A densitometria óssea deve ser realizada antes do tratamento e após um ano do seu uso para avaliar seus benefícios.


REFERÊNCIAS

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VIEIRA, Rachel; TREVISANI, Virgínia F. Moça. RIBEIRO, João Paulo Nogueira. Osteoporose: a importância da prevenção à quedas. Revista brasileira de reumatologia. V. 43. N. 6. P. 364-368. NOV/DEZ, 2003;

LOPES, Antônio Carlos. Tratado de Clínica Médica. 2. ed. São Paulo: Rocca, 2011;

COTRAN, R.S; Kumar V; COLLINS, T. Robbins. Bases Patológicas das Doenças: Patologia. ed. 7. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005;


Goldman L,  Ausiello D. Cecil. Tratado de Medicina Interna. 22ªEdição. Rio de Janeiro: elsevier, 2005.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

DOENÇA DE CHAGAS



Figura 01: imagem do Triatoma infestans, o popular barbeiro. Imagem encontrada em http://cukabiologica.blogspot.com.br/2011/03/parasitismos-os-protozoarios-e-saude.html


EPIDEMIOLOGIA E AS VIAS DE TRANSMISSÃO DA DOEMÇA DE CHAGAS

Estima-se a existência de 3 milhões de infectados no Brasil. A infecção se dá pelos seguintes tipos: transmissão pelo vetor; transfusão sanguínea, transmissão congênita, pois são identificados ninhos de tripanosomas nas placentas, transmissão oral pelo leite materno na fase aguda e ingesta carnes derivadas de animais contaminados, e por fim transplante.


CICLO DO TRIPANOSSOMA
Figura 02: ciclo do tripanossoma cruzi. Imagem encontrada em: http://miriamsalles.info/wp/archives/3512
O agente etiológico dessa patologia é o protozoário chamado Tripanossoma cruzi, possuidor de ciclo heteroxêmico, ou seja, seu ciclo reprodutivo precisa infectar mais de uma espécie de hospedeiro. O invertebrado relacionado é apenas o triatomíneo (barbeiro), enquanto haja um razoável número de vertebrados suscetíveis à infecção. O protozoário, da classe Kinetoplastida, é identificado pela presença de uma mitocôndria modificada rica em DNA, o cinetoplasto. O polimorfismo deste parasita se relaciona com a capacidade infectiva e resistência a anticorpos, pois a forma larga terá menor virulência e maior resistência a anticorpos, enquanto as formas delgadas são mais infectantes e com maior exposição aos mecanismos de defesa. Essas formas também tem preferência por infectar as células do sistema fagocitário do baço, fígado e medula óssea, enquanto as formas largas têm preferência por células musculares, por exemplo, as cardíacas.

As formas infectantes serão distintas nos diversos hospedeiros. No invertebrado existirão as três formas: esferomastigotas no estômago e intestino, epimastigotas no intestino e tripomastigotas no reto, sendo esta última a forma contaminante.


CICLO NO VERTEBRADO

As formas tripomastigotas são as formas infectantes, ocorrendo através das fezes do triatomíneo depositadas junto ao local do repasto. Essas formas penetram e interagem com células do sistema monomorfonuclear fagocitário (SMF), onde se multiplicam por divisão binária. A partir daí seguem três caminhos: são destruídas, ficam na corrente sanguínea ou infectam algum órgão.

Quando as formas tripomastigotas invadem o organismo terminam por interagir com receptores de membrana no macrófago, o que induz a formação do vacúolo fagocitário e consequente contato com enzimas lisossômicas. Se houver alguma forma epimastigota ela será destruída, enquanto que a forma tripomastigota migrará para o citoplasma e se transformará em amastigotas três horas depois da infecção celular. Essa se reproduzirá continuamente até o rompimento da célula, assim como ocorre na malária.  Posteriormente essa forma irá retornar à tripomastigota, da qual muitos exemplares não poderão ser destruídos.

A proteção contra os linfócitos se dá pela inibição das moléculas CD3+, CD4+ e CD8+, embora essa última tenha eficácia discretamente maior em relação às outras. Os macrófagos, naturalmente com função imunitária, servem aqui de sítio de replicação, assim como na dengue.  A presença de IL-10 no sangue do hospedeiro indica a inibição de interferon-gama, expressão de óxido nítrico e de MHC de classe II.

A partir daí, se a resposta imune for eficaz, a parasitemia consegue controlar o número de tripanossomas e por isso o indivíduo não apresentará sintomas, caracterizando a forma indeterminada da doença.

O triatomíneo se infecta com as formas tripomastigotas durante o repasto em animais previamente contaminados. No estômago os protozoários com essa forma se transformam em esferomastigotas e então epimastigotas, que irão migrar até o reto do inseto e se transformar em tripomastigotas para serem exteriorizados na defecação pós-repasto.


CARDITE CHAGÁSICA

É a complicação mais comum, de padrão biventricular, apresentando infiltrado linfocitário, miocitólise, edema, hipertrofia e flacidez. Com a passagem para a forma crônica o coração apresenta arritmias e fenômenos tromboembólicos, grande hipertrofia e fibrose muscular. A lesão mais característica é a lesão apical, com substituição do miocárdio por fibrose em aurícula direita e ponta do ventrículo esquerdo. Agregação plaquetária sobre os leitos vasculares formam uma barreira e é o motivo para a lesão de microcirculação e posterior fibrose. A patologia também cursa com vasodilatação via mediadores inflamatórios e do próprio parasita, com perda da oxigenação em regiões limítrofes aos endotélios vasculares de consequências fibróticas importantes. Em resumo, a fibrose ocorre por hipóxia ocasionada pelo impedimento da passagem do oxigênio através do epitélio vascular, e não por trombos.
 
Na forma crônica o coração evolui com insuficiência cardíaca por sua flacidez e dilatação, tomando forma arredondada, vasos congestos com dilatação proeminente do lado direito, alterando tanto a frequência quanto a motilidade do órgão. O afilamento da ponta do ventrículo é motivo para o aneurisma cardíaco. Essa mesma lesão também ocorre em outros locais, como a parede látero-posterior do ventrículo esquerdo.

Um fato interessante sobre o infiltrado inflamatório é que seu principal agente, os linfócitos,  agridem também células não parasitadas, sugerindo a existência de outros mediadores do ataque às fibras cardíacas no Chagas. Um exemplo é a presença do fator de crescimento transformante beta, sem o qual não há introdução do parasita nas células. Ocorre também reação cruzada entre antígenos dos T. cruzi e das fibras cardíacas levando à reação autoimune não-dependente da carga de parasitas, pois a agressividade inflamatória na fase crônica não é desproporcional ao número de tripanossomas nas células. Os tripanossomas, então, funcionam como um disparador da reação inflamatória, cuja agressão atinge fibras não parasitadas. A gravidade da cardiopatia chagásica, é também inversamente proporcional à idade, sendo mais grave em crianças menores de dois anos.


HABITAT E VETOR DA TRIPANOSSOMÍASE

Os hospedeiros do ciclo silvestre são o tatu e o gambá. Os mais importantes do ciclo domiciliar é o cachorro, o gato e o rato.

A colonização brasileira e o tipo de moradia construída pelos colonos foi o início da sinantropia (adaptação do animal à moradia humana após alteração do ambiente silvestre). O caso dos Estados Unidos, onde as moradias mais antigas não foram feitas de pau-a-pique e barro conservou o ciclo silvestre do triatomíneo. No Brasil, onde o poder aquisitivo é pequeno, casas de construção com frestas se tornam moradias para o triatomíneo, que se pré-infecta no ciclo silvestre e repassa a infecção através do repasto no humano.


DIAGNÓSTICO

O exame solicitado após o paciente informar ser vítima do repasto sanguíneo pelo triatomíneo é “sorologia para chagas”, ou seus sinônimos “sorologia para T. cruzi” ou apenas “tripanossoma cruzi”. A sorologia atualmente não é mais realizada pelo método Machado Guerreiro, pois tanto a especificidade quanto a sensibilidade deste exame são baixos. Os métodos atuais se aproximam de 100% na detecção da patologia, inclusive em casos de doença de Chagas crônica não identificada.  

Caso seja realizado a radiografia de tórax na fase crônica será identificada a cardiomegalia de discreta a importante, congestão pulmonar, ou até aumento isolado do ventrículo esquerdo.


SINTOMAS

Da fase aguda para a crônica o paciente passa por diversas manifestações até entrar em equilíbrio parcial com a quantidade de parasitas em seu organismo. As manifestações da fase aguda se iniciam nos primeiros dias e abramgem febre, mal-estar, astenia e hipertrofia de linfonodos. O paciente pode apresentar o sinal de Romoña, que é um edema bipalpebral elástico e indolor de aparecimento abrupto. As pálpebras terão uma coloração violácea e aumento de linfonodos satélites, nesse caso os pré-auriculares, parotídeos ou submaxilares. Pode surgir também o chagoma de inoculação na pele, que é uma saliência redonda, quente e ruborizada. O ECG já vai apresentar modificações, com alargamento do espaço P-R, inversã ou baixa voltagem da onda de repolarização ventricular, a onda T. poderão ocorrer extrassístoles também.

A fase crônica é dividida em diversas formas a saber: indeterminada, que é uma fase assintomática, quando ocorre o equilíbrio parcial entre hospedeiro e parasita; a forma cardíaca é a mais incapacitante e a mais relacionada com os casos de evolução para a morte, englobando a dor precordial, tosse tonturas, síncopes, além de hipofonese e desdobramento de segunda bulha; A forma digestiva se caracteriza por lesões em plexos nervosos simpáticos, alterando a morfologia em todo o trato digestivo. O megaesôfago e o megacólon são as manifestações mais comuns. Do primeiro surge a regurgitação, epigastralgia, dor retroesternal e odinofagia (dor no momento da deglutição) e emagrecimento. Do megacólon advém a constipação com evolução para o fecaloma e o meteorismo.

A forma mista envolve o comprometimento do coração e intestino. A forma crônica congênita sempre cursará com hepatomegalia e icterícia, tendo também casos de hipoglicemia importante.




TRATAMENTO

Caso a infecção ocorra pode-se fazer o tratamento com o rochagan. Este medicamento é administrado via oral na dose de 5 a 7 mg/Kg de peso por dia divididos em duas administração de 12/12h, preferencialmente após o café e jantar. Em crianças a dose é de 5 mg/Kg de 12/12h pelo mesmo período. Seu uso deve ser feito de 30 a 60 dias, possui uma ligação a proteínas plasmáticas muito baixa, em torno de 44%. Infelizmente sua eficácia é comprovada apenas na fase aguda ou início da fase crônica.

A OMS faz a recomendação da administração de 30 a 60 dias, mas alguns especialistas o recomendam por até 90 dias. Nos pacientes que utilizaram esse medicamento por logo tempo demonstraram uma melhora da parasitemia e da função cardíaca. O tratamento só estará fechado quando os exames diagnósticos estiverem negativos por um ano. A caixa contém comprimidos birranhudos de 100 mg.

Os problemas desse medicamento são os efeitos adversos, que fazem muitas vezes o médico esperar o resultado dos exames sorológicos para iniciar a terapia de em paciente picado pelo triatomínio. Esses efeitos não ocorrem na maioria dos pacientes que fazem uso da dose adequade, e englobam: na primeira e segunda semana podem surgir reações cutâneas que não exigem interrupção do tratamento. Por vezes essas reações podem ser mais intensas, acompanhadas de febre e púrpura, nesse caso exigindo interrupção e reintrodução gradual, quando no geral não aparece sintoma algum. Distúrbios gastrointestinais quase sempre aparecem no início do tratamento, mas com o tempo o organismo se adapta às doses e esses sintomas desaparecem. Leucopanie e trombocitopenia pode surgir com o tratamento mas desaparece com sua interrupção. Cefaleia, vertigem e fadiga são manifestações raras.

Afecções renais, hepáticas e hematológicas são as únicas contra-indicações, porém não são absolutas. A ingesta de álcool deve ser evitada e o paciente deve ter seu hemograma e coagulograma controlado de perto.

Outra opção é o nifurtimox, mas os efeitos adversos são mais complicados, tais como, insônia, sonolência, excitação de sistema nervoso central, distúrbios gastrointestinais, anorexia, dor abdominal, cefaleia, mialgia, artralgia, vertigem, náuseas e vômitos, vertigem e manifestações cutâneas como erupções e reações alérgicas. É altamente contraindicado em gestates, pois foi identificado alterações cromossômicas. A dose para adultos é de 8 a 10 mg/Kg/dia por 60 a 120 dias; para crianças de 1 a 10 anos é de 15 a 29 mg/Kg/dia por 90 dias; de 11 a 16 anos é de 12,5 a 15 mg/Kg/dia durante 90 dias. A dose de 10 mg/Kg/dia também provou ser eficaz contra a leishimaniose.


REFERÊNCIAS

Cardiopatia Chagásica Humana - Aspectos Anátomopatológicos e Patogenia, disponível em http://www.fiocruz.br/chagas/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=94, acessado em 22 de abril de 2013; (DESTAQUE)
VIOTTI, et al. Tratamento f cronic chagas disease wicth benznidazole: clinical and serologic evolution of pacientes wicth long-term follow-up. Am Heart  J. Cap 127. p. 151-162, 1994;
MARIN-NETO, José Antônio; SIMÔES, Marcus Vinícius; SARABANDA, Álvaro V. Lima. Cardiopatia Chagásica. Arquivo Brasileiro de Cardiologia. v. 72. n. 3. Ribeirão Preto, 1999;
GURGEL, Cristina Brandt Friedrich; FERREIRA, Maria Cristina Furian; MENDES, Cleyde Regina; 
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